Os acontecimentos dos últimos dias, em várias partes do planeta, provam de uma vez por todas que a Humanidade ainda engatinha – no sentido infantil do termo – quando o que está em discussão, justamente, são assuntos de interesse globalizado. Senão, vejamos:
- A queda de Fidel
O ditador cubano, famoso pela revolução feita há quase 50 anos com o auxílio de Che, levou um tombo enquanto participava de um encontro cultural a mais de 200 quilômetros de Havana. El comandante, do alto de seus 78 anos, não percebeu um degrau travesso e sucumbiu em quatro atos. Espatifou-se na frente de seus comandados na ilha, quebrando o joelho e sofrendo uma fissura no braço esquerdo. Comoção geral em Cuba. Pouco acima no mapa, o porta-voz do governo Bush e vários políticos republicanos divulgaram declarações em que se negavam a desejar melhoras a Fidel. "O sofrimento dele é pouco perto do sofrimento que ele faz o povo cubano passar há décadas", disseram. O pensamento teve eco na Europa. A frase pode ser traduzida para "Viu, Fidel, essa queda foi castigo de Deus". Pena que, para eles, El Comandante não acredita no Todo Poderoso. É, o embargo está loooonge de acabar.
- A eleição nos EUA
Kerry diz que Bush é covarde porque o presidente não teria lutado na Guerra do Vietnã. Bush responde dizendo que Kerry tem memória fraca e que falta-lhe colhões, afinal, ele votou a favor da invasão do Iraque e hoje se diz contra a Guerra. No meio desse embate, o dublê de exterminador e governador da Califórnia, Arnold Schawzennegger confessa que ficou duas semanas sem fazer sexo com a mulher Maria Shriver, simplesmente porque a democrata ficou putinha por ele ter discursado a favor do republicano Bush. Aliás, essa história de sexo está na moda. Sempre. É que um grupo de "heróis" norte-americanos procura voluntários para transar com aqueles que, simplesmente, votarem na eleição. Se isso acontecesse no Brasil, iria faltar fraldas no mercado dentro de nove meses.
- O caso Herzog
Virou picuinha de ambas as partes. De um lado, parte da imprensa que divulgou três fotos que seriam do jornalista Vladimir Herzog, morto há 29 anos e um dia nas dependências do Doi-Codi, em São Paulo. Do outro, parte maior da imprensa que tenta provar por A + B que as fotos seriam de um padre canadense humilhado pelos órgãos de repressão militares, apoiadas em declaração da Abin e do secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda. Aos poucos, as provas vão aparecendo. E, com elas, uma verdadeira birra. Um grupo apresenta, de repente, um vizinho da igreja em que o padre dava sermões dizendo que o reconheceu nas fotos. O outro grupo, por sua vez, sem perder tempo, mostra, em suas páginas, o porteiro de um restaurante que o jornalista costumava freqüentar, em Quixeramobim, dizendo que, sim, era ele, nas fotos. Com a freira, com o relógio, no estrado. Testemunhas se sucedem. Uma reconhece uma foto. Outra, nega as três fotos. Uma terceira acha que é. Outra, que não. Ô, briguinha de criança...
- A política brasileira
Poucas coisas combinam tanto quanto a política brasileira e a série "coisas de criança". O jantar do Lula com o PFL, por exemplo. Vai quem é convidado, como o provocador ACM. Quem não vai, se sacode. E fica putinho. E se acha traído, não é, seu Bornhausen? Outro exemplo? Os boatos espalhados pelo alucinado casal Garotinho em relação ao galã, Lindbergh. Coisas de crianças más, of course. Ou, então, a atitude-mais-quem-é-que-manda-do-ano, protagonizada pelo senhor Lula, em relação ao Exército, mandando os generais reescreverem a tal nota do Herzog (ele, de novo). Afinal, ora, quem é o dono da bola? E, para finalizar o exemplo, as brigas entre o rei das rinhas, Duda Mendonça, e o dono da Marta, o franco-argentino Luís Favre. Uma troca de farpas típicas de colegiais rivais, loucas pela atenção da eventual derrotada.
- O tal do Mainardi
Da camada de ozônio à crise do Flamengo; da violência no Rio ao paredón cubano; dos furacões nos EUA à seca do Nordeste; da fome na África às enchentes no Sudoeste Asiático; da invasão no Iraque à exploração sexual de meninas em barcos da Amazônia. Tudo, mas tudo mesmo que acontece no mundo, tudo de ruim, de atrasado, de matuto, de reprovável... é culpa do PT. Do PT e de Lula, Genoino, Dirceu, Gushiken, Mercadante, Marta e adjacentes. Pelo menos na mente inquieta, perturbada, irônica e raivosa do colunista da Veja, Diogo Mainardi. Se algumas críticas têm sua razão de ser, outras soam forçosamente gratuitas, popularescas, prontas para saciar a sede de seus habituais e vorazes leitores. Birra, birra deveras infantil.
E, assim, a cada nascer do sol, a lusitana roda. Roda e gira. E a gente vai percebendo que no micro ou no macro, o ser humano ainda não amadureceu, não evoluiu o suficiente para cuidar da sua própria vida e agir em nome do progresso. Ou, pelo menos, a não se sentir tão excluído quando não é lembrado para aquela festinha ou ida ao boteco. Ou quando não recebe um cartão de Natal. Ou quando não é chamado para a cerimônia, muito menos para ser o padrinho do casamento daquele amigo de infância. Nem por tudo isso é preciso dar piti, perder as estribeiras, agir como criança carente e abandonada. Ora. Crescer, em certas ocasiões e em relação a determinadas situações, é preciso. Principalmente, quando está em discussão a pobre saúde do globo terrestre.